Silêncio

Martin Scorsese está na categoria dos gênios do cinema. A diversidade e a qualidade da sua obra lhe dão uma espécie de salvo-conduto para produzir, escrever e dirigir um filme tão difícil e pouco comercial quanto “Silêncio”, que fala de religião no século XVII. Scorsese faz uma fantástica viagem ao Japão para lembrar uma época em que o cristianismo era proibido por lá. Dois padres jesuítas portugueses, interpretados por Andrew Garfield e Adam Driver, vão da Europa ao país oriental à procura de padre Ferreira (Liam Neeson), mentor dos dois jovens religiosos, que desaparece após missão no Japão e, segundo rumores, é suspeito de ter cometido apostasia (abandono ou renúncia da fé).

Tirante os três atores citados acima, o elenco é praticamente todo composto por japoneses, e o diretor usa de uma licença poética do cinema para desenrolar uma questão linguística. Todos os japoneses entendem a língua local dos religiosos, o português, que, no filme, é inglês. Deu pra compreender? Detalhes à parte, “Silêncio” é um filme de 2 horas e 40 minutos de duração, que segue mais ou menos o mesmo diapasão durante toda a projeção. Em tempos de intolerância por toda a parte, Scorsese fala de perseguição religiosa em um período em que a Europa era palco da Inquisição, quando a igreja católica queimou milhares de pessoas acusadas de “heresia”. Em “Silêncio”, são os cristãos que são torturados e mortos.

O filme, baseado na obra de Shûsaku Endô, é forte e faz o espectador pensar sobre tempos tão cruéis, em que a fé era utilizada como meio de dominação. A pergunta que permeia todo o longa é justamente sobre o silêncio (de Deus) que dá título ao filme e que, segundo seus personagens, é inexplicável. Por que motivo Ele se cala diante de tantas dúvidas e sofrimento? A obra de Scorsese é contemplativa e lenta, com bela fotografia e questionamentos sobre a fé, que é universal e ultrapassa quaisquer convicções de credo. “Silêncio” não está entre os melhores filmes do diretor e, pela natureza do tema, deve passar pelas salas brasileiras sem grande alarde. Mesmo assim, é mais um trabalho marcante do diretor que, aos 75 anos, continua contribuindo muito para o cinema mundial.

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Philipe Deschamps Written by:

Philipe Deschamps é jornalista, comentarista de esportes e cinema. Tem uma coluna de cinema, todas as sextas-feiras, na Rádio MEC (800 AM), no programa Arte Clube, às 18.45 hs.

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