Manual_do_Detetive_Particular.BR – Caso 001: Alva

Lembro-me como se fosse ontem do meu primeiro caso. Era uma tarde de quarta-feira chuvosa. Aquele perfume invadiu meu escritório e minha alma. “Grandes”. Foi a primeira palavra que passou pela minha mente quando ela passou pela porta. “Duros” foi a segunda. Não pude deixar de reparar no seu enorme anel de brilhantes. “Rica. Espero que não seja casada”, pensei. Nunca fui um homem ciumento, mas não gosto de confusão. Nos meus longos anos como detetive particular, jamais me deixei envolver com uma cliente. Mas Alva era de parar o trânsito.

– Eu preciso de ajuda. Estão tentando me incriminar, Sr Cavadinha. Eu não matei meu pai. Tenho certeza de que minha madrasta está envolvida nisso. – disse Alva com sua voz forte, grave e sedutora.

– Eu farei o possível e o impossível para ajudá-la, Srta Alva. –  prometi, segurando suas lindas mãos enormes.

Aquele anjo de um metro e oitenta de altura jamais seria capaz de matar um homem. Mesmo tendo sido ela a principal herdeira do império do velho. Mesmo com seu histórico de internação por esquizofrenia. Mesmo que alguns empregados tenham escutado sua fervorosa discussão com a vítima. Mesmo que tenham encontrado na sua casa a arma do crime. Mesmo com suas impressões digitais nela. Mesmo com pedaços do seu pai encontrados no seu freezer.

– Pedaços não provam nada, Sr Cavadinha.

Concordei. Fomos até a mansão para olhar de perto a cena do crime. Ouvimos um barulho. Joseph, o mordomo, estava na cozinha preparando costelas. O cheiro era delicioso.

– Alva, minha querida. Não precisa mais se preocupar. – disse Joseph sem sequer tirar os olhos da comida que preparava.

Joseph nos entregou uma carta. A letra, um pouco trêmula, um papel sujo com algo que parecia ser molho de tomate. Mas a confissão do crime estava assinada. Aquela madrasta com cara de boazinha, amante de gatos e cachorros vira-latas, benfeitora de meia tigela de artes comunista, madrinha de ONG´s fajutas, amante de golfinhos. Ridícula! Certamente tinha cara de culpada.

Joseph colocou a mesa do jantar. Pedi a receita do molho, mas ele se recusou a dizer seu ingrediente secreto. Um cozinheiro meticuloso, certamente. Depois do jantar entreguei-o a polícia. Ele deveria ter jogado fora seu kit de facas desfalcado antes de me convidar para sentar.

***x***

 

Assine nossa Newsletter

Arquivos

Renata M. Cardoso Written by:

Sou carioca apaixonada por música, cinema e aventuras de ficção. Tive um caso de amor tórrido com a música por alguns longos anos, mas depois veio a literatura. Em 2007 resolvi assumir meu affair e tirar os meus textos da gaveta. Não consigo parar mais! A banda morreu, ficaram as gravações e fotografias com cabelos e roupas pra lá de estranhos, mas meus personagens nasceram finalmente. Participei de algumas antologias de contos, blogs e concursos. Em 2010 publiquei o livro infantil "A Fadinha Carolina", pela editora Prestígio e em 2015 o meu primeiro romance, chamado "Lusco-fusco", disponível na Amazon.com.br.

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.